Paulo Freire


PAULO FREIRE O ANDARILHO DA UTOPIA

 

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em Recife, Pernambuco, no dia 19 de setembro de 1921 e faleceu em 2 de maio de 1997, em sua casa, na cidade de São Paulo. Em sua trajetória de EDUCADOR DO POVO, Paulo Freire nos deixou um legado muito importante: • Uma profunda crença na pessoa humana e na sua capacidade de educar-se como sujeito da história; • Uma postura política firme e coerente com as causas do povo oprimido, temperada com a capacidade de sonhar e de ter esperanças, e com a ousadia de fazer e de lutar pelo que se acredita. E junto com isto a humildade de quem sabe que nenhuma obra grandiosa se faz sozinho e que é preciso continuar aprendendo sempre; • Um jeito do povo se educar para transformar a realidade. Uma pedagogia que valoriza o saber do povo, ao mesmo tempo em que o desafia sempre mais; • Uma preocupação especial com a superação do analfabetismo, com uma pedagogia que alfabetize o povo para ler o mundo.

Fonte: setor de educação MST

TEMPO NO RECIFE

O primeiro e mais longo dos três períodos da vida de Paulo Freire, entre 1921 a 1964, teve Recife e Jaboatão como cenários. Anos de infância e adolescência, de formação escolar e consolidação das raízes afetivas e intelectuais de seu pensamento. Filho de Joaquim Temístocles Freire, capitão da Polícia Militar de Pernambuco e de Edeltrudes Neves Freire, Dona Tudinha, Paulo teve uma irmã, Stela, e dois irmãos, Armando e Temístocles. Sobre a mãe Paulo dizia: “Ela era essa coisa eufêmica que se chama prendas domésticas (…). Era uma bordadeira excelente!” (Freire. P. e Guimarães, S., 1982, p. 17). Conforme depoimento de Maria Adozinda Monteiro Costa, educadora e prima de Paulo Freire, que conviveu com a família por vários anos, Dona Tudinha era uma pessoa boníssima, cuja conduta era pautada pela mansidão. A irmã Stela foi professora primária do Estado. Armando, funcionário da Prefeitura da Cidade do Recife, abandonou os estudos aos 18 anos, não chegou a concluir o curso ginasial. Temístocles entrou para o Exército. Aos dois, Paulo agradece emocionado, em uma de suas entrevistas a Edson Passetti (Passetti, E. 1998, p. 35), pois começaram a trabalhar muito jovens, para ajudar na manutenção da casa e possibilitar que Paulo continuasse estudando. Guardou da infância lembranças fortes que o acompanharam por toda a vida e que relata em várias de suas obras. “Minha alfabetização”, declarou à Revista Nova Escola, em dezembro de 1994, “não me foi nada enfadonha, porque partiu de palavras e frases ligadas à minha experiência, escritas com gravetos no chão de terra do quintal”. De modo ainda mais incisivo, escreveu em A importância do Ato de Ler (Freire, P. 1982 p.16): “Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, com palavras do meu mundo, não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz”. Em Sobre Educação (Freire, P. e Guimarães, S. 1982 p.14-15): “Você veja como isso me marcou, anos depois. Já homem, eu proponho isso! Ao nível da alfabetização de adultos, por exemplo”. Na mesma entrevista à Nova Escola (parcialmente transcrita em Paulo Freire, uma biobibliográfica, p.30), Paulo fala com ternura de Eunice Vasconcelos, sua primeira professora: “jovenzinha de seus 16, 17 anos (…) ela me fez o primeiro chamamento com relação a uma indiscutível amorosidade que eu tenho hoje, e desde há muito tempo, pelos problemas da linguagem e os da linguagem brasileira, a chamada língua portuguesa do Brasil”. Difícil para toda a família foi deixar a casa da Estrada do Encanamento, em abril de 1932. Em vários depoimentos e entrevistas, Paulo recorda com amor a casa, o quintal, as duas mangueiras, próximas o bastante para que seu pai armasse uma rede a sua sombra. Lembra que até os sete anos, aproximadamente, o bairro onde havia nascido “era iluminado por lampiões (…) Eu costumava acompanhar, do portão de minha casa, de longe, a figura magra do acendedor de lampiões de minha rua”.(Freire, P. 1982, p.15). Esclarece a Passetti (1992, p. 32): a casa da Estrada do Encanamento, 724, pertencia ao “tio Rodovalho”, comerciante no Rio de Janeiro, que a deixara com a mãe dele, avó de Paulo: “vivíamos todos na casa de minha avó”. “A crise de 1929 afetou o comércio” e o Rodovalho, até então bem sucedido, não encontrou outro caminho senão a concordata, seguindo-se a hipoteca e a perda da casa. Sem recursos para alugar outra casa no Recife, a família foi morar em Jaboatão. Permaneceria em Jaboatão durante nove anos, de abril de 1932 a maio de 1941. No Recife conservaram, como símbolos de um status provisoriamente perdido, o piano alemão, em que sua tia

TEMPO NO EXILIO

O fato de ser posto em liberdade não lhe oferecia o mínimo de segurança de poder retomar seu trabalho de educador e filósofo da educação, sem a constante ameaça de voltar a ser preso. O Programa Nacional de Alfabetização fora extinto já no dia 14 de abril. Por duas vezes tinha sido forçado a viajar do Recife ao Rio de Janeiro para responder a inquérito policial-militar.Entretanto, resistia a sair do Brasil. Partiu, então, para seu tempo de exílio: de setembro de 1964 a junho de 1980. Em uma rápida passagem pela Bolívia, o Embaixador se recusava a receber mais um asilado político. Vencida a barreira, durante sua permanência na Embaixada, no Rio de Janeiro, foi procurado pelo Diretor de um Departamento do Ministério da Educação da Bolívia, que o contratou para prestar assessoria no campo da educação, em particular da educação primária e de adultos. Saía do Brasil empregado. Entretanto, não suportou a altitude de La Paz. Entre novembro de 1964 a abril de 1969 viveu em Santiago do Chile. Em 1992 escreveu, na Pedagogia da esperança (p. 35): “Cheguei ao Chile de corpo inteiro. Paixão, saudade, tristeza, esperança, desejo, sonhos rasgados, mas não desfeitos, ofensas, saberes acumulados, nas tramas inúmeras vividas, disponibilidade à vida, temores, receios, dúvidas, vontade de viver e de amar. Esperança, sobretudo.” Em Santiago, o reencontro com a família – Elza e os filhos, chegados em meados de janeiro de 1965 – possibilitou viver uma nova experiência, novas aprendizagens resultariam e, ao mesmo tempo, seriam o início de uma das linhas de força que marcariam sua história de vida. No Chile, respirou um certo clima de Brasil, o encontro e a aproximação com intelectuais brasileiros igualmente exilados: Plínio Arruda Sampaio, Ernani Maria Fiori, Álvaro Vieira Pinto, Francisco Weffort, Fernando Henrique e Ruth Cardoso, Thiago de Mello, entre outros. Certamente, não havia entre eles unidade de pensamento nem ali estavam levados por motivos idênticos. Em Santiago retomou o fio de sua prática pedagógica, de inicio, como assessor de Jacques Chonchol, Presidente do Instituto de Desarrollo Agropecuario (INDAP). Posteriormente, na condição de consultor da UNESCO, atuando no Instituto de Capacitación y Investigación de la Reforma Agrária (ICIRA). No Chile escreveu seu primeiro livro publicado comercialmente: Educação como prática da liberdade, “uma revisão ampliada” de Educação e atualidade brasileira, a tese com que concorreu à cátedra de História e Filosofia da Educação, na Escola de Belas Artes da Universidade do Recife. Os originais em português da, Pedagogia do Oprimido, foram igualmente escritos no Chile, entre 1967 e 1868 e seriam publicados pela primeira vez em 1970: em inglês, nos Estados Unidos da América (Pedagogy of the oppresed), Nova York, Herder and Herder, e em português, com importante prefácio de Ernani Maria Fiori, Rio de Janeiro, Editora Paz e Terra (Cf. Gadotti, M., Organizador, 1996, p.262). No Chile, foram ainda escritos alguns dos livros de Paulo Freire: Educação e conscientização: extensionsimo rural (em colaboração com Ernani Maria Fiori, José Luiz Fiori e Raul Veloso Farias), CIDOC, Cuernavaca, México, 1968; Contibución al proceso de conscientización del hombre en América Latina, Montevidéu, 1968; Acción cultural para la lidertad, ICIRA, Santiago, 1968; Extensión o comunicación? La conscientización en el medio rural, ICIRA, Santiago, 1969 (Cf. Gadotti, M., Organizador, 1996, p.260-62). Esses livros davam forma a seu discurso no Recife, inclusive ao discurso-base do “método Paulo Freire” e anunciavam sua obra prima: a Pedagogia do oprimido. Do Chile saiu pela primeira vez em 1966, para realizar conferências e participar de seminários no México, Cuernavaca, onde reencontrou Ivan Ilich, que conhecera no Recife, no início dos anos 60, e estabeleceu um bom relacionamento com Erich Fromm. Em 1967 fez sua primeira visita aos Estados Unidos da América, a convite de seis Universidades norte-americanas. Voltaria aos Estados Unidos, ainda em seu tempo de exílio, para uma permanência mais longa, de abril de 1969 a fevereiro de 1970, em Harvard e, não simultaneamente, em um Centro de Pesquisa, orientado “no sentido de uma compreensão crítica do desenvolvimento” (Freire, P. e Guimarães, S. 2000, p. 76-78). A saída para os Estados Unidos foi uma decisão que envolveu toda a família. Em 1969 Madalena já havia casado e estava morando no Brasil. Em 1970 tinha vários convites: continuar nos Estados Unidos por mais três anos (possibilidade que agradava a Elza), Canadá, Genebra (Conselho Mundial das Igrejas). Amava e era grato ao Chile. De outra parte, algumas dificuldades começaram a surgir no Chile: boatos, que considera “de um ridículo enorme”, de que “teria escrito um livro violentíssimo contra a democracia cristã como um todo, mas, sobretudo contra a pessoa do Presidente Frei, que era um homem de bem”. Acrescenta em depoimento a Sérgio Guimarães (Freire, P. e Guimarães, S. 1987, p.107): “Não quis ser saído de novo”. Além disso, de acordo com informação de Almeri Bezerra de Melo (2001, p. 28), Paulo Freire, que não se adaptara à altitude na Bolívia, agora enfrentava um maior obstáculo no Chile: os terremotos. “Acho que tudo pode me faltar na vida; daria um jeito. Mas, o chão, isso não! Quero sair dessa terra”. “Diante disso, declara Almeri Bezerra ter ido a Genebra, acompanhada do presidente e do secretário executivo do Centro de Documentação da Igreja Pós-conciliar. Propuseram e foram acatados pelo Conselho Mundial das Igrejas, que enviou a Paulo uma carta convite para prestar algo como uma consultoria especial ao Departamento de Educação do Conselho. Diz Almeri, no mesmo local:” ele viria para as margens do Lago Leman, onde não há terremotos; teria uma sala com secretária, a biblioteca da instituição, uma digna ajuda de custos e tempo para estudar e aprofundar suas idéias…” Durante 10 anos, de fevereiro de 1970 a junho de 1980, Freire encontrou em Genebra, no Conselho Mundial das Igrejas, endereço estável. Professor na Universidade de Genebra, com liberdade para desenvolver experiências fora da Suíça, Paulo Freire partiu para o mundo (sempre retornando a Genebra). Fez-se presente com sua palavra e ação na Ásia, Oceania, América e, sobretudo, na África de língua portuguesa (Cabo Verde, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau). A partir de Genebra, Paulo Freire projetou-se na história da educação no século XX como um cidadão do mundo. Amadureceu afetiva e intelectualmente, a partir dos desafios vivenciados em diferentes culturas. No Conselho Mundial das Igrejas, confessa: “Eu nunca talvez tenha sido tão livre!” O mesmo diria, de modo mais incisivo, em uma entrevista a Tempo e presença (1979, citada por Faundez, 1996, p. 190): “E se você me pede para testemunhar, enquanto cristão, católico de formação, direi que jamais, em toda a minha vida, me senti tão livre, quanto no período que trabalhei no Conselho Mundial das Igrejas. E deve-se convir que eu trabalhei em muitos outros lugares.”. A expansão de suas atividades fora de Genebra foi facilitada pela criação do Instituto de Ação Participativa (IDAC), fundado em 1971, em Genebra, por Paulo Freire juntamente com outros exilados brasileiros (Claudius Ceccon, Miguel e Rosiska Darcy de Oliveira). O IDAC levou Paulo Freire e o grupo que com ele atuava em Genebra a Cabo Verde, Angola, Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau. O projeto de assessoria a Guiné-Bissau se alongou por cinco anos (Ceccon, C. 1996, p. 214). Sem dúvida, como observa Faundez (1996, p. 190): “Todos os que conhecem o pensamento e a prática educativa de Paulo Freire sabem que os anos 70 foram o período mais profundo e mais rico de sua práxis pedagógica, sempre em contínua e constante evolução.”. Com a perspectiva do retorno de Paulo Freire ao Brasil, em decorrência da anistia, a sede do IDAC foi transferida para o Rio de Janeiro e passou a ser um Centro de Estudos e Pesquisas Educacionais, cujo principal objetivo “é a divulgação das obras e do pensamento de Paulo Freire” (Gadotti, M., Org., 1996, p. 682). Paulo Freire tinha 43 anos de idade quando partiu para o exílio. Retornou quase 16 anos após. Em junho de 1979 obtivera seu primeiro passaporte brasileiro. Passou o mês de agosto no Brasil. Mas, somente no ano seguinte voltaria para ficar. Chegava com o desejo de “reaprender o Brasil”, como em 1964 falara de “aprender o Chile”. Apesar do muito que ensinou ao mundo, que aprendeu do mundo, jamais perdeu os vínculos afetivos e culturais com o Brasil, o nordeste brasileiro, o Recife. “Antes de ser cidadão do mundo”, repetiu várias vezes, “sou um cidadão do Brasil.” Jamais perdeu sua recifensidade. O período do exílio foi duramente vivido. Assim escreveu na Pedagogia da esperança (Freire, P., 1992, p.35): “É difícil viver o exílio. Esperar a carta que se extraviou, e notícias do fato que não se deu. Esperar às vezes gente certa que chega, às vezes ir ao aeroporto simplesmente esperar, como se o verbo fosse intransitivo.” Mas, ao mesmo tempo, lhe proporcionou a oportunidade de consolidar seu pensamento. Voltou com um novo aspecto: a barba, que começou a usar nos Estados Unidos, para se defender do frio. Mas, era o mesmo Paulo Freire, profundamente telúrico, antes de tudo, um pensador, um filósofo da educação, um educador e, por ser educador, um político.

TEMPO DE SÃO PAULO

Voltou para o Brasil e para o Recife: “Recife, sempre” escrevera do Chile. Então, por que São Paulo? Por que não, Recife? São Paulo foi uma opção quase inevitável. Ninguém melhor do que Ana Maria Freire, para testemunhar (Freire, A. M. A., 1996, p. 44-45): “Condições políticas ainda difíceis”, decorrentes da Lei da Anistia, diz Ana Maria Freire, exigiam do antigo exilado, que pretendesse retomar suas antigas funções, requerer ao governo o estudo do seu caso. Requerimento pode ser deferido ou indeferido. Pode estabelecer restrições. Ainda que fosse deferido e sem restrições, seria uma condição inaceitável. “Por considerá-la ofensiva, recusou-se a aceitar tal exigência, tanto no caso da docência quanto no de técnico”, referente a suas atividades no antigo SEC. Paulo Freire precisava do apoio institucional que lhe assegurasse uma base salarial justa, referência internacional e liberdade para atender aos inúmeros convites que, bem sabia, continuariam a vir dos Estados Unidos da América e de outras partes do mundo para ministrar cursos e conferências. Convites que, de fato, ocorreram, até o final de sua vida. Convites e convocações de Universidades e de outras entidades internacionais, que representavam justas honrarias, por tudo o que construíra e continuava construindo em prol da educação. Só a morte o impediu de repetir de viva voz: “Se, de um lado a educação não é a alavanca das transformações sociais, de outro, estas não se fazem sem ela”. De “viva voz”, no entanto, continuou insistindo na Pedagogia da Indignação, obra póstuma organizada por Ana Maria Araújo Freire: denúncia, anúncio, profecia, utopia e sonho (Freire, P., 2000, p.91). Em São Paulo, encontrou as condições de trabalho e a liberdade de ação que não encontraria no Recife. “Devido à possibilidade aberta pela Lei da Anistia e pelo espírito democrático da Reitoria da PUC, pôde ficar para trabalhar, amar e criar em seu próprio país” (Freire, A M. A ., 1996, p. 44). Além disso, de setembro de 1980 ao final do ano letivo de 1990, foi professor da UNICAMP. Entretanto, somente em 1985, a UNICAMP conferiu a Paulo Freire a condição de professor titular. Para tanto, o Reitor solicitou do Conselho Diretor um “parecer sobre Paulo Freire”: Rubem Alves foi o encarregado de faze-lo e elaborou um incisivo documento, transcrito por Ana Maria Araújo Freire em “A voz da esposa – A trajetória de Paulo Freire” (1996, p.44-45). No mesmo ano de seu retorno ao Brasil, 1980, Paulo Freire decidiu, pela primeira vez, filiar-se a um Partido Político: o Partido dos Trabalhadores (PT), do qual foi um dos fundadores. Nos anos 50, certa frustração, diante das expectativas e do processo da redemocratização de 1945, não estimulara Paulo Freire a se envolver na política partidária. Nem mesmo durante os primeiros anos dos 60. Testemunha, no entanto, que por muitos anos sonhou com um Partido Político diferente. No “Manifesto à maneira de quem, saindo, fica”, Epílogo de Educação na Cidade (1991, p. 143), Paulo Freire confessa: “Esperei por mais de 40 anos que o PT fosse criado.” Ao tomar conhecimento da proposta de criação de um Partido dos Trabalhadores, ainda na Europa, já expressou sua adesão. Se durante os anos 70, no Conselho Mundial das Igrejas e do Conselho Mundial das Igrejas para o mundo, Paulo Freire alcançou o período mais profundo e mais rico de sua práxis educativa, nas palavras de Antonio Faundez, as décadas seguintes, dos anos 80 e 90, não apenas o mantiveram andarilhando mundo afora mas, agora, também pelo Brasil. Se Freire realizou sua reaprendizagem do Brasil, uma releitura do Brasil, o Brasil fez uma redescoberta de Paulo Freire. De 1964 a 1980, nomes como os de Paulo Freire e Dom Helder Câmara, experiências pedagógicas como a do Movimento da Cultura Popular, a Campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler, o Movimento de Educação de Base eram “protegidos” pela cultura do silêncio. As conseqüências são, ainda hoje, conhecidas: no Brasil: quantos cursos de Pedagogia têm nos seus currículos o estudo do pensamento de Paulo Freire? Em outubro de 1986, Paulo foi surpreendido pela morte de Elza. É verdade que o estado de saúde de Elza inspirava cuidados. Era cardíaca. Usava um marcapasso. A morte de Elza representou para Paulo uma perda muito difícil de absorver. Entretanto, compreendeu que era preciso viver. Fez a opção pela vida e pelo amor. No dia 27 de março de 1998 casou com Ana Maria Araújo. Ana Maria era, então, sua orientanda no curso de mestrado da PUC. Paulo a conhecera no Recife, filha de Aluízio Araújo, cujo papel havia sido tão decisivo em sua história, ao conceder-lhe, na condição de Diretor do Colégio Oswaldo Cruz, a bolsa que possibilitou a continuidade dos seus estudos. De um belo depoimento de Mere Abramowicz (1996, p.201-04), envolvendo dois momentos da vida de Paulo, a perda de Elza (1986) e o encontro com Nita – Ana Maria Araújo – (1988). “1986 – É um processo lento e difícil. Eu só saio disso se eu sair. Eu não posso ser saído, puxado por alguém. Decidir que eu saio é romper. Decidir é ruptura. Ficar com o morto é a tendência. Ficar com o que está vivo, essa é a decisão! Em momentos como eu experimento agora, morre-se um pouco. Muito de mim ficou vivo. Tenho uma lealdade para com a minha sobrevivência.” Ao receber o título de Doutor honoris causa na PUC de São Paulo: “1988 – Amei durante 42 anos intensamente! Elza morreu e eu não matei Elza em mim. Mas optei pela vida! É a única forma de viver e ser leal a Elza. Tive a coragem de casar, de amar outra vez! Vivi momentos de culpa ao olhar uma rosa bonita! Amando essa outra mulher encontrei o mundo! Quem não é capaz de amar tem que se rever. Dedico esse título à memória de uma e à vida da outra!” De 01 de janeiro de 1989 a 27 de maio de 1991 Paulo Freire ocupou o cargo de Secretário da Educação da Cidade de São Paulo. Não era a primeira vez que ele exercia a administração de um organismo de natureza educacional. Na verdade, assim começara, no SESI, em Pernambuco. Em 1960, Germano Coelho (2002, p. 49), na condição de Diretor Executivo do Departamento de Documentação e Cultura (DDC), da Prefeitura do Recife, nomeou Paulo Freire para a Diretoria de Cultura da entidade. No Movimento de Cultura Popular, era ele o Diretor da Divisão de Pesquisa e, como tal, integrante do seu Conselho de Direção. No SEC (Serviço de Extensão Cultural), órgão por ele criado no quadro da então Universidade do Recife, era igualmente o Diretor. Em 1964, por ocasião do Golpe, Paulo Freire era o Coordenador do Programa Nacional de Alfabetização, instituído no MEC pelo Ministro Paulo de Tarso Santos. A escolha do nome de Paulo Freire para a Secretaria de Educação do Município de São Paulo, pela Prefeita Luíza Erundina, foi “a opção mais lógica”, observam Moacir Gadotti e Carlos Alberto Torres (1995, p. 11-17): não apenas pelo fato de ser Paulo Freire o educador que era, mas por ser membro fundador do PT, integrar sua Comissão de Educação, ser o Presidente da Fundação Wilson Pinheiro, também do PT. Paulo aceitou o novo desafio, com a condição de permanecer como Secretário apenas durante os dois primeiros anos da gestão da Prefeita Luíza Erundina. Tinha o projeto de escrever outros livros, o que não seria possível enquanto estivesse envolvido com a engrenagem da administração pública. E considerava seus cursos, conferências, entrevistas debates e livros como tarefas prioritárias. Tanto que Paulo Freire não foi (nem poderia ter sido) um executivo convencional. Nem sempre foi compreendido quando, percebendo que seria conveniente para o andamento das tarefas burocráticas, dar-se um tempo de lazer para refletir melhor. Interrompia suas atividades na Secretaria e, sem meias palavras, dizia: “vou ao cinema com minha mulher”. A obra que resultou de seu tempo de Secretário, A Cidade na Educação, tampouco aborda o dia-a-dia da burocracia. Reúne dois conjuntos de entrevistas, concedidas, as primeiras, ao longo do ano de 1989, sob o título geral de “Educar para a liberdade numa metrópole contemporânea”, a periódicos brasileiros (Leia, Escola Nova, Psicologia – do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo) e estrangeiros (do Canadá e da Itália); ao Sindicato dos Trabalhadores do Ensino, de Minas Gerais; à Fundação para o Desenvolvimento do Oeste do Paraná. São, como são, em geral, as entrevistas de Paulo Freire, oportunidades de reflexões livres, ainda que um tema focal sirva de fio condutor do pensamento. Reflexões que nos conduzem a refletir também, sobre os déficits da educação brasileira; para mudar a cara da escola; desafio da administração municipal; alfabetização de jovens e adultos; história como possibilidade. O segundo conjunto de entrevistas compreende um intercâmbio de reflexões e experiências com a Professora Ana Maria Saul e os Professores Moacir Gadotti e Carlos Alberto Torres. No Epílogo que fecha o livro (Manifesto à maneira de quem, saindo, fica), escreve: “Não estou deixando a luta, mas mudando, simplesmente, de frente”. Contribuiu, ainda, para a construção do Instituto Paulo Freire, de São Paulo, e a mais completa fonte bibliográfica para o estudo de sua história e do seu pensamento: Paulo Freire – uma biobibliografia, Organizada por Moacir Gadotti e Colaboradores (1996). No dia 12 de abril de 1991, testemunha Moacir Gadotti (2001, p. 17), “Paulo Freire, numa reunião com educadores e amigos, lançou a idéia da criação do Instituto Paulo Freire. Seu desejo era encontrar uma forma de reunir pessoas e instituições do mundo todo que, movidas pela mesma utopia de uma educação como prática da liberdade pudessem refletir, trocar experiências, desenvolver práticas pedagógicas nas diferentes áreas do conhecimento que contribuíssem para a construção de um mundo com mais justiça social e solidariedade.” Naquele ano, 1991, 19 de setembro, Paulo Freire completou 70 anos de idade. Este fato ensejou numerosos registros e homenagens, com ou sem sua presença, em várias partes do mundo. No Recife, sua Cidade, o Conselho Estadual de Educação e a Secretaria de Educação, Cultura e Esportes do Estado de Pernambuco promoveram, conjuntamente, uma afetuosa homenagem a seu filho, por vários títulos, ilustre: 70 anos de Paulo Freire no mundo. No Manifesto à maneira de quem, saindo, fica, Paulo Freire declarou não estar abandonando a luta, mas “mudando de frente”. Talvez fosse mais exato, dizer: retornando à frente à qual dedicou o tempo mais substancial de sua vida – pensar e escrever seus sonhos e utopias. Sonhos e utopias que dariam corpo a obras que completariam, ao lado de Educação como prática da liberdade (1967) e Pedagogia do oprimido (1970), algumas das referências maiores para se compreender Paulo Freire: Pedagogia da esperança (1992), Cartas a Cristina (1994), À sombra desta mangueira (1995), e Pedagogia da autonomia (1997). E deixaria, simbolicamente, inconclusos, cartas e textos que seriam reunidos por Ana Maria Araújo Freire em um livro emblemático: Pedagogia da Indignação (2000). Na verdade, como escreveu Balduino Andreola, que a prefaciou, não se trata de uma obra póstuma. Penso que simboliza uma história não finalizada, mas que continua “se fazendo”. Não era uma frase de efeito, mas uma convicção profundamente arraigada, quando Paulo Freire dizia: “seguir-me é não me seguir; é reinventar-me.” Nos anos 90, durante a gestão da Professora Silke Weber na Secretaria de Educação do Estado de Pernambuco, Paulo Freire fez diversas visitas ao Recife e, também, ao Cabo de Santo Agostinho. Vinha, quase sempre, para falar aos professores e professoras de várias entidades, principalmente atuando em programas de alfabetização. Trabalhava, então, dando continuidade a vínculo que tinha raízes profissionais nos anos 50, ao lado de Maria Adozinda Monteiro Costa. Em fevereiro de 1997, Paulo Freire fez sua última visita ao Recife. Veio a convite do SESI. Proferiu, então, uma palestra (Freire, P. 1997-b), a última entre nós, quando rememorou os dez anos em que trabalhou no SESI. Mais uma vez, repetiu: “mudar é difícil, mas é possível.” Escreve Ana Maria Araújo Freire, na Pedagogia da indignação (Freire, P., 2000, p. 67-68) que, apesar de cansado, ainda em abril de1997, Paulo se encontrava intelectual e emocionalmente envolvido com o seu trabalho, com a educação. Lembra que, no dia 20, recebeu a visita de Germano Coelho e de sua filha, Verônica, e para eles leu as cartas pedagógicas que estava escrevendo. Germano e Verônica “foram às últimas pessoas que tiveram o privilégio de saber detalhes e de ouvir da própria voz do autor, trechos desse livro inacabado” (Pedagogia da indignação). Dois dias após, 22 de abril de 1997, Paulo Freire proferiu, na PUC de São Paulo, sua última aula. Nas palavras de Ana Maria, naquele último encontro com Paulo Freire, Germano Coelho e Verônica “testemunharam a energia emanada de sua indignação e de seu amor; à vontade de trabalhar e de participar, criticamente, da vida de seu país; e o gosto de viver que Paulo levou consigo na madrugada de dois de maio de 1997.” Paulo Freire morreu de infarto, aos 75 anos de idade.

Fonte: Centro de Estudos sobre Paulo Freire de Pernambuco.